Jornalistas falam sobre a ética nas reportagens investigativas como no caso Isabella

 A morte da pequena Isabella Nardoni, que foi asfixiada e jogada do sexto andar do Edifício London, zona norte de São Paulo, no dia 29 de abril, comoveu todo o país. A população tem sua atenção voltada para a mídia, esperando o desfecho dessa trágica história, que aponta o pai e a madrasta como suspeitos.

Mas, quais são os critérios necessários para se realizar uma matéria investigativa e a cobertura de um assunto de grande repercussão, como o caso Isabella? O jornalista tem a função de investigar ou de apenas informar o que a polícia conclui?

 Alguns dos grandes jornalistas da tevê brasileira, como Percival de Souza, Ana Paula Padrão e José Luiz Datena, que deram suas opiniões.

Percival de Souza

Como escritor e jornalista investigativo, Percival especializou-se em assuntos criminais e de segurança pública. Atualmente, ele trabalha na Record.

“Jornalismo investigativo nada mais é do que a prática de desvendar mistérios e fatos ocultos do conhecimento público, como casos de corrupção, desvios de dinheiro, crimes e estelionatos. Esse trabalho é imprescindível para mudar e alertar a população, sobre diversos aspectos. Se não existisse esse ramo, muitas providências em nosso país não teriam sido tomadas, e só foram apresentadas após as denúncias da imprensa. Este jornalismo é fundamental. Ele precisa existir”, explica Percival.

Para realizar esse trabalho, existem, segundo ele, alguns aspectos que não podem ser esquecidos:

“O jornalista trabalha sozinho. Trata-se de algo solitário. Ele nem deve comentar o fato da apuração com colegas de redação, pois pode atrapalhar o andamento do trabalho. Quanto menos pessoas souberam sobre o seu trabalho, melhor será. São necessárias fontes, tem de se identificar e convencer a pessoa (ou pessoas) a falar sobre o assunto, em nome de um bem comum”.

A Segurança

Para se fazer esse tipo de reportagem, o jornalista precisa tomar alguns cuidados:

“Em alguns momentos, são necessárias condições para que a integridade física do profissional não corra riscos. Já recebi algumas ameaças, não posso negar. Mas, faz parte”.

Cuidados com a informação

Ética, segundo Percival, é fundamental, em se tratando de coberturas como o caso da menina Isabella, no qual não existe conclusão e sim suspeitos do crime:

“O jornalista está lá para mostrar os fatos, mas tudo com muita responsabilidade. Eu também sou comentarista, tenho que ter responsabilidade no que falo. Não sou teleguiado por ninguém. Sou apenas um portador dos fatos. De um lado tem advogado, promotor, polícia. Não importa. Não sou porta-voz da polícia, nem de ninguém. Se dou algo que um promotor não gosta, enfim, isso é problema dele.  Estou lá para dar a informação. Tenho que ter certeza do que estou fazendo”.

Caso Tim Lopes

Percival relembra a morte do jornalista Tim Lopes, que foi torturado e morto, em 2002, quando realizava matéria sobre os bailes funks dos subúrbios do Rio de Janeiro.

“Todos os profissionais ficaram extremamente assustados com tudo aquilo. E, depois disso, muitos carros das equipes começaram a ser blindados e, em alguns momentos, os jornalistas andam de coletes à prova de balas”.

Ana Paula Padrão

A jornalista trabalhou durante anos na Globo e atualmente está no SBT, no comando do SBT Realidade. Em sua carreira, realizou grandes coberturas de guerras em Kosovo e no Afeganistão.

“Numa reportagem investigativa, é necessário que se sigam os princípios do jornalismo. Como ouvir os dois lados de uma mesma história, por exemplo. O papel do jornalista é provar uma denúncia, um ato ilegal que esteja ocorrendo. Têm de ser observados os fatores legais, morais e de ética”, explica Ana Paula.

Sobre suas experiências em guerra, ela comenta:

“Claro que existe a preocupação com a segurança pessoal. Tem de se observar quais são os riscos desse tipo de matéria”.

Os perigos da cobertura de uma guerra são grandes. Para quem não se lembra, Bob Woodruff, jornalista da rede de tevê americana ABC que ficou conhecido por substituir o colega de profissão Peter Jennings, à frente do World News Tonight, um dos mais respeitados telejornais dos Estados Unidos, em 2006, ao ser enviado ao Iraque para cobrir os conflitos que acontecem na região, ficou ferido numa explosão na estrada em que seu veículo transitava.

 

José Luiz Datena


Datena, que atualmente apresenta o programa Brasil Urgente!, da Band, tem suas restrições com relação ao jornalismo investigativo.

“Sinceramente, não acredito muito nesse termo jornalismo investigativo, quando o assunto é cobertura de um crime, um assassinato, por exemplo. A imprensa não tem o papel de investigar e, sim, de informar os fatos, apurados pela polícia e Justiça. Existe, sim, um jornalismo policial informativo. Nós, jornalistas, recebemos as informações e temos o dever de informar à população. Sou contra aqueles que saem apurando sozinhos, pois podem, em alguns casos, até atrapalhar ou  colocar como culpados aqueles que não o são”.

O jornalista, porém, acha que, quando as autoridades deixam o caso, a investigação do repórter passa a ter um papel importante:

“A reportagem e a investigação só são compatíveis, quando é um assunto de interesse público, no qual as próprias autoridades envolvidas deixaram de investigar. Aí, sim, uma boa matéria pode questionar e tentar esclarecer o assunto”, conclui.

 

 

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8 Responses to “Jornalistas falam sobre a ética nas reportagens investigativas como no caso Isabella”


  1. 1 Tatiana 30 de abril de 2008 às 03:48

    Existe aquele velho chavão que diz que todo jornalismo, por sua essência, é investigativo.
    Não concordo que essa seja a realidade atualmente.
    No caso da menina Isabela, por exemplo, a última coisa que jornais e revistas vêm fazendo é mostrando os dois lados da história. Desde o princípio, todas as matérias levam a crer que os culpados pelo crime são o pai e madastra da menina, mesmo antes de todas as provas contra o casal.
    Além disso, o caso Isabella nada mais é, em minha opinião, algo que a imprensa utiliza para não destacar problemas de importância muito maior, como pessoas que estão na miséria e pobreza devido a corrupção e oportunismo de muitos nomes poderosos. Isso sim seria, de fato, un jornalismo investigativo: colocar nas manchetes de jornais todos os nomes de políticos e patifarias que são ocultadas do povo.
    Ainda como estudante, tenho a pretensão de exercer esse tipo de jornalismo, que eu acreditava ser o motivo pelo qual a imprensa foi criada: mostrar a VERDADE ao público, ou, pelo menos, tentar aproximar-se dela.
    Infelizmente, chegando ao fim de minha graduação, percebo que o quadro é outro. Apesar de ainda ser possível desvendar todos os casos que são, equivocadamente, arquivados, é difícil de engolir o que muitos professores dizem: eu pensava como você quando estudante. O mais irônico de tudo isso é pensar que estudantes ainda tem a ilusão de representar JORNALISMO. O que temos hoje em dia, não sei por qual nome devo chamar.

  2. 2 Lucio Furtado Carvalho 30 de abril de 2008 às 10:52

    Lucio Furtado Carvalho
    É de entristecer ver uma noticia tão triste e comovente ser entreada por propagandas de extrato de tomate e leilões duvidosos.
    Que Deus nos perdoe pela falta de respeito com a doce menina morta tão brutalmente.

  3. 3 Lucio Furtado Carvalho 23 de maio de 2008 às 21:57

    É TRISTE VER UMA NOTICIA TÃO TRAGICA SER ENTREMEADA POR PROPAGANDAS DE EXTRATO DE TOMATE E LEILÕES DUVIDOSOS.
    QUE DEUS NOS PERDOE PELA FALTA DE RESPEITO COM A MENINA MORTA TÃO BRUTALMENTE.

  4. 5 para o gil 25 de outubro de 2009 às 21:59

    infelizmente muitos casos como esses estão acontecendo a cada momento no mundo!

  5. 6 MARCILENE 25 de novembro de 2009 às 12:02

    REALMENTE PRESCISAMOS A VALORIZAR MAIS OS JORNALISTAS

  6. 7 Aneia Araujo 26 de maio de 2011 às 19:14

    Lógico que existe sim o Jornalismo Investigativo, há critérios para apuração que são diferentes do jornalismo informativo, no jornalismo informativo, checa-se as fontes, os fatos e informa-se, ponto, o jornalismo Investigativo muitas vezes esta vinculado a investigações que envolvem comportamentos por tras dos fatos. Naturalmente que um não anula o outro, ambos são imprescindíveis.

  7. 8 Marcelo 16 de agosto de 2012 às 16:02

    não sei oque é isso não vei acho que ética (do grego ethos que significa modo de ser caráter e etc


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