SÃO PAULO – O marido da professora Luciene Gomes Leitão, de 43 anos, que morreu após fazer uma lipoaspiração na Santa Casa de Santa Rita do Passa Quatro, cidade a 248 quilômetros da capital, negou que a mulher tenha tido problemas com anestesia no parto de sua única filha de 17 anos. Maricelso Bueno afirmou que a diretoria da Santa Casa está ‘arrumando um motivo para dizer que a Luciene não podia tomar anestesia’. Mário Lira, diretor-administrativo da Santa Casa, afirmou que só depois que Luciene entrou em coma teria ficado sabendo por funcionários que a paciente teria tido algum tipo de “problema com anestesia” durante o parto de sua única filha.
- Isso não é verdade. Chequei com minha sogra e ela disse que não houve nenhum problema com anestesia. A Luciene apenas tomou um calmante porque estava nervosa antes do parto. Não sei de onde saiu essa história que ela teve problemas com anestesia – afirmou Maricelso, que não era casado com Luciene na época do nascimento da menina.
Para o marido de Luciene é a diretoria da Santa Casa e o médico que fez a lipoaspiração na professora, Marcos Eduardo Barbuio, que devem explicar porque ela tomou uma anestesia geral em vez da peridural.
- A Luciene me disse que para o procedimento seria dada uma anestesia peridural, mas ela acabou tomando anestesia geral. Por que? Alguma coisa aconteceu que não estamos sabendo – disse Maricelso, que questiona a sindicância interna que está sendo feita pela Santa Casa.
Ele disse que ainda não conseguiu falar com o médico que fez a lipoaspiração que levou sua mulher à morte. Mas segundo Maricelso, o médico teria falado com o irmão de Luciene.
- Ele disse para o irmão dela que não sabe o que aconteceu – afirmou Maricelso.
O Globo tentou falar com o médico, mas ele não foi localizado.
O marido de Luciene contou ainda que a anestesista teria dito que a queda no batimento cardíaco de Luciene aconteceu quando ela foi ‘virada’ na mesa de operação para que fosse feita a lipoaspiração nas costas.
- Foi nessa hora que disseram que o batimento dela caiu. Por que não fizeram a lipoaspiração apenas no abdome? Se existia algum risco, o médico e a anestesista deveriam ter tomado todas as precauções – disse Maricelso.
Nove dias em coma
A professora morreu no último sábado após ficar nove dias em coma, conseqüência de uma cirurgia de lipoaspiração. Luciene, especializada em linguagem de sinais, fez a lipoaspiração na Santa Casa de Santa Rita do Passa Quatro e chegou a ser transferida para a UTI da Beneficência Portuguesa de Ribeirão Preto. O médico responsável pela lipoaspiração foi o cirurgião Marcos Eduardo Barbuio, que ainda não foi localizado pelo “O Globo” para comentar o caso.
A família da professora acusa a Santa Casa de ter demorado para transferi-la para uma Unidade de Terapia Intensiva. Segundo Maricelso, ela entrou para a sala de cirurgia às 7h da manhã do último dia 1, mas só foi encaminhada para a Beneficência Portuguesa de Ribeirão Preto, a 77 km de distância de Santa Rita, às 20h.
Bueno afirma que deixou a mulher no hospital às 6h e foi levar a filha, de 17 anos, para a escola. Retornou ao hospital às 9h, mas só ao meio-dia obteve alguma informação.
- Passei o dia inteiro na sala de espera. Por volta do meio-dia, uma funcionária do hospital disse que a minha mulher tinha tido um pequeno problema e que ‘tudo estava controlado’. Estranhei a demora a me informarem o que de fato aconteceu. Por volta das 16h50m procurei a encarregada da enfermagem, que me disse que a Luciene não acordava da cirurgia – conta.
Segundo o marido de Luciene, a enfermeira chamou então o neurocirurgião do hospital.
- Ele disse que não tinha uma boa notícia para a gente. Estranhei ele não estar acompanhando a cirurgia desde o começo – diz Bueno.
O comerciante afirma que não havia vaga na UTI da Santa Casa e que houve demora para levá-la até um hospital que tivesse leito de UTI disponível.
- Teve todo o procedimento burocrático, de papelada. Só sei que minha mulher saiu da Santa Casa em uma ambulância com UTI improvisada, pois não há UTI móvel no hospital. Ela chegou em Ribeirão Preto após 40 minutos.
Luciene teve morte cerebral constatada no último sábado, dia 11. O enterro da professora aconteceu neste domingo, com cemitério lotado. A família decidiu doar os rins, córneas e fígado. Bueno afirma que a mulher era vaidosa e juntou dinheiro durante um bom tempo para fazer a cirurgia.
Mário Lira, diretor-administrativo da Santa Casa, afirma que abriu sindicância para apurar as causas da morte. Segundo ele, só depois de Luciene ter entrado em coma teria ficado sabendo por funcionários que a paciente teria tido algum tipo de “problema com anestesia” durante o parto de sua única filha, uma adolescente de 17 anos.
- Ela fez um procedimento rotineiro no abdômen. Teve um acidente, uma redução de freqüência cardíaca. Foram feitos todos os exames pré-operatórios antes e nada foi constatado de anormal. Nos chegou a informação de um problema relativo à anestesia na cesariana da paciente, que ele própria havia passado antes da cirurgia. Porém, nada foi constatado no pré-operatório – afirmou o diretor da Santa Casa.
Mário Lira afirmou que a equipe médica responsável pela cirurgia é “conceituada e experiente”. Segundo ele, a equipe faz, em média, quatro cirurgias deste tipo por mês.
- Não houve também falhas nos equipamentos, que foram comprados há um ano e são os mais modernos em termos de tecnologia. Lamentamos muito o fato e, desde o problema, mantivemos contatos freqüentes com a família – diz o diretor da Santa Casa.
O diretor clínico da santa casa, Onézimo Rolzante, disse que só iria se pronunciar sobre o caso depois que se interar dos laudos médicos.
O marido de Luciene afirmou que a família ainda não decidiu se vai processar o hospital.