Arquivo para Outubro 16th, 2008

Negociação dá errado e amiga de jovem sequestrada é feita refém novamente em Santo André

SÃO PAULO – Entrou no terceiro dia o drama da estudante Heloá Cristina Pimentel da Silva, de 15 anos, mantida refém, desde as 13h30 de segunda-feira, pelo ex-namorado, Lindembergue Fernandes Alves, em um apartamento em Santo André, no ABC paulista. Por volta das 9h, uma amiga de Heloá, Nayara, que havia sido libertada na terça-feira, entrou no apartamento para ajudar nas negociações com o sequestrador, mas foi feita refém mais uma vez. AE

Segundo a polícia, a entrada da amiga de Heloá, Nayara, no apartamento era uma das condições para que o sequestro acabasse. Nayara estava no grupo que foi inicialmente rendido por Alves na segunda-feira, mas foi libertada na noite de terça.

Ainda nesta manhã, uma ambulância teve que ser deslocada para o local já que o pai de Heloá teve um mal estar. Ele foi atendido pela equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e retirado em uma maca de um apartamento próximo ao que estão sua filha e o industriário.

Durante a madrugada, era possível se perceber luzes no interior do apartamento e ficou claro que uma TV estava ligada. Às 2h da manhã, Alves desligou o aparelho. A Polícia Militar não conversou com a imprensa neste período e aumentou a área de isolamento do prédio. Os repórteres foram colocados a uma distância em linha reta de 150 metros e em um ponto do qual não é possível visualizar o bloco muito menos as janelas do apartamento onde a estudante é mantida refém.

Por volta das 5h desta manhã, a polícia se aproximou um pouco mais do imóvel, mas não informou se as negociações via celular ocorreram durante a madrugada.

Policiais civis e militares se enfrentam em SP pelo menos 23 ficam feridos em protesto

SÃO PAULO – Pelo menos 23 pessoas ficaram feridas no choque entre policiais militares e civis, na tarde desta quinta-feira em São Paulo, durante o protesto dos policiais civis, que estão em greve há um mês. O confronto ocorreu quando os agentes tentaram furar o bloqueio dos militares, que tentavam impedir a aproximação dos manifestantes ao Palácio dos Bandeirantes, na zona sul da capital paulista. Os policiais decidiram manter a paralisação.

Futura PressTreze vítimas foram encaminhadas para o pronto-socorro do Hospital Albert Einstein. De acordo com um boletim da assessoria do hospital, o quadro de saúde dos pacientes é estável. Outras cinco pessoas seguiram para o Hospital São Luiz. Uma delas apresentou fratura exposta na mão direita, outra teve queimaduras de 3° grau na região abdominal.

No Hospital Itacolomy, no bairro do Butantã, estiveram cinco feridos e todos já foram liberados. Uma das vítimas, segundo o Palácio dos Bandeirantes, é um coronel que chefiava as negociações.

A tropa de choque utilizou bombas de gás para dispersar os manifestantes. Como resposta, os policiais civis avançaram sobre os militares, gerando uma grande confusão em todo o entorno do Palácio dos Bandeirantes.

Uma resolução da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) proíbe manifestações populares nas vias públicas nos arredores do Palácio dos Bandeirantes por ser uma área considerada de segurança.

A concentração dos manifestantes começou na Praça Jules Rimet, em frente ao Estádio do Morumbi. O ato, organizado por sindicatos e associações de policiais, tem o objetivo de pressionar o governador José Serra (PSDB) a abrir as negociações com a categoria.

 

De acordo com a Companhia de Engenharia e Tráfego (CET), por volta das 13h30, a passeata dos policiais civis deixou a Avenida Giovanni Gronchi com tráfego lento. No mesmo horário, o acesso aos hospitais Albert Einstein e São Luiz ficou prejudicado.  

Um mês de greve

A greve da Polícia Civil completou um mês nesta quarta-feira sem acordo entre a categoria e o governo. A negociação emperrou no índice de reajuste dos salários. Os policiais reivindicam, no mínimo, dois dígitos de aumento, mas o governo oferece 6,2%.

Será a quarta mobilização da categoria, que já fez três passeatas até a Secretaria da Segurança Pública, a Assembléia Legislativa e a Secretaria de Gestão Pública.

“A greve continua com a mesma força. No interior, a adesão é ainda maior. Na capital, a maior parte dos distritos policiais está em funcionamento padrão. Alguns distritos, por serem seccionais, como o de Santa Ifigênia, Pinheiros e Sacomã, continuam com o atendimento normal”, afirma Sérgio Marcos Roque, presidente da Associação dos Delegados do Estado de São Paulo.

Na semana passada, a categoria suspendeu a greve por 48 horas, na tentativa de dialogar com o governo. “Mas não recebemos nenhuma proposta concreta. O governo continua intransigente”, diz Roque. Ele esteve ontem em Brasília para conseguir o apoio de deputados federais e senadores para que as negociações com o governo sejam retomadas e nova proposta seja feita.

A Secretaria de Gestão Pública reafirmou, por nota, as propostas à categoria. O governo propõe aumento linear de 6,2% a policiais civis da ativa, aposentados e pensionistas; aposentadoria especial; reestruturação das carreiras com a eliminação da 5ª classe e a transformação da 4ª classe em estágio probatório; e a fixação de intervalos salariais de 10,5% entre as classes.

O presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, José Leal, contesta a secretaria. “O governo não procurou os policiais para discutir a questão da reestruturação. E nem tocou no assunto da incorporação dos adicionais no salário da aposentaria”, diz.

Segundo ele, os profissionais perdem a remuneração adicional quando se aposentam. O governo ofereceu a extinção do nível mais baixo da gratificação de localidade e informou que a incorporação nos salários das gratificações significaria um gasto de R$ 1,8 bilhão por ano. Mas o maior motivo de desacordo ainda é o índice de reajuste. Os policiais já chegaram a pedir 15% para este ano e 12% para os dois anos seguintes.

Rapaz que mantém ex-namorada refém vive “fantasia”, diz psiquiatra

Lindemberg Fernandes Alves, 22, que mantém como refém a ex-namorada de 15 anos desde a última segunda-feira (13) em um apartamento em Santo André (Grande São Paulo) vive uma fantasia, de acordo com o psiquiatra forense Guido Palomba. Para o especialista, o mais longo cárcere privado do Estado de São Paulo tem chances iguais de acabar em tragédia ou terminar com a libertação da refém.

“Tudo é possível [de acontecer]. Temos o rapaz, que está comandando o episódio, então ele é o “herói’ da história. No psiquismo dele e ela é a “amada’ da história. Ele é o “Dom Quixote’ e ela a “Dulcinéia’”, afirmou Palomba. “Quando há passionalidade você põe igual a irracionalidade. E quando você põe irracionalidade, tudo pode acontecer.”

Alves invadiu o apartamento da adolescente por volta das 13h30 de segunda-feira, inconformado com o fim do namoro de três anos com a garota. O relacionamento terminou há aproximadamente um mês.

“Isto está se arrastando há três dias. Mas o que estão fazendo: estão comendo, dormindo, assistindo televisão, estão ali e se tornaram o centro do mundo, no psiquismo dele. Agora, como conseqüência, tudo pode acontecer, é mundo de fantasia [dele]“, disse Palomba.

De acordo com o psiquiatra, em cárceres privados como esse, de motivação passional, não há como separar vítima e seqüestrador. Para Palomba, não há como o caso terminar bem com a adolescente buscando um desfecho e o rapaz outro.

Fernando Donasci/Folha Imagem
Negociadores da policia se posicionam próximo a prédio onde rapaz mantém a ex-namorada refém em Santo André, na Grande SP
Negociadores da polícia se posicionam próximo a prédio onde rapaz mantém a ex-namorada refém em Santo André, na Grande SP

“É um binômio, não dá para separar um do outro. Ele está com ela, que é tudo o que ele queria, ela dominada. Já conversaram sobre tudo. Podem sair de lá querendo casar, ou, como Romeu e Julieta”, analisa o psiquiatra. “Ele libertar ela, não acredito. Não vai ter eu quero assim e eu quero assado. Ou querem a mesma coisa ou nada. O binômio não vai se desfazer. Só depois”.

Para Eduardo Ferreira Santos, psiquiatra e psicoterapeuta, Alves pode ter transtorno de personalidade, que usa formas inadequadas para resolver situações de frustração.

“Ele não reage bem às frustrações, tem traços de histeria. O relacionamento amoroso dele parece tumultuado. Ela [a vítima] é uma adolescente, ele também age como um adolescente, apesar de ter 22 anos. É uma situação que a princípio parece como aquelas que terminam em tragédia”, afirma Santos.

De acordo com psiquiatra, o ideal seria que o negociador que dialoga com a adolescente e o com Alves tivesse experiência em crise de casais para amenizar a situação.

Amiga

Nesta quinta, outra adolescente que também havia sido rendida e foi libertada na noite de terça-feira (14), voltou ao apartamento para auxiliar nas conversas.

A garota permanece no imóvel com a amiga e com o rapaz, que está armado. A Polícia Militar, responsável pelas negociações, ainda não informou por que decidiu permitir que a adolescente voltasse ao apartamento.

Por volta das 12h45, uma das meninas que está no apartamento jogou pela janela uma mochila, supostamente contendo utensílios onde seriam colocados alimentos. Na quarta (15), por meio de uma corda feita com lençóis, a refém recebeu alimentos.

Também na quarta, Alves conversou rapidamente com a reportagem, por telefone. “Tô preocupado com todo mundo”, disse ele sobre sua família.

“Na situação que eu ‘tô’ não dá para parar e pensar nisso”, disse Alves ao ser questionado sobre o que pretende fazer após libertar a ex-namorada.


 

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