
SÃO PAULO – Após mais de 100 horas, terminou de forma trágica o seqüestro das adolescentes Eloá Cristina Pimentel Silva e Naiara Rodrigues Vieira, ambas de 15 anos, em Santo André. Eloá levou dois tiros, um na cabeça e outro na virilha, e está em coma. Ela perdeu muita massa encefálica e seu estado é gravíssimo. Naiara foi baleada na boca, mas não corre risco de morrer. ( veja imagens do fim do seqüestro )
Os médicos decidiram não retirar a bala que ficou alojada no crânio de Eloá, que saiu da cirurgia para a UTI. Em entrevista, diretores do hospital informaram que, numa escala de 1 a 10, o risco de morte é 9. Eles também não têm condições de dizer se ela ficará com seqüelas caso sobreviva.
O coronel Eduardo José Félix, que comandou a negociação com o seqüestrador Lindemberg Alves, de 22 anos, durante toda a semana, disse que a polícia só invadiu o apartamento onde as meninas eram mantidas após ouvir um tiro. Policiais do Gate, que estavam num apartamento vizinho ao de Eloá, teriam ouvido o disparo e, antes dele, ouviram conversas de que, mais uma vez, Lindemberg não iria libertar as meninas.
O tiro não pôde ser ouvido por quem estava do lado de fora do prédio. O primeiro sinal de que as coisas não iam bem foi uma explosão. Segundo o coronel, o barulho foi provocado por uma bomba plástica, de efeito moral.
Em seguida, três tiros foram ouvidos. A invasão do apartamento pelos policiais veio a seguir. Segundo o comandante, ao entrar no apartamento os policiais encontraram Naiara na sala. Eloá foi achada no chão da cozinha, baleada.
Lindemberg estava entre a sala e a cozinha e não se rendeu. Lutou com policiais e teve de ser dominado na saída do apartamento. O rapaz saiu ileso. De acordo com o coronel, ele tinha uma arma calibre 32 e cinco cartuchos foram deflagrados. A polícia teria feito a operação apenas com bombas de efeito moral e balas de borracha.
Para o coronel, o tiro que acertou a virilha de Eloa foi dado ainda na manhã de sexta.
- Houve um tiro pela manhã, provavelmente o que acertou a virilha de Eloa, já que a posição foi de baixo para cima, diferente da que ele (Lindemberg) estava quando o local foi invadido.
O rapaz foi algemado e encaminhado para exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal. Em seguida, levado para prestar depoimento no 6º Distrito Policial.
Os pais de Eloa ouviram quando Lindemberg disparou os tiros. Viram também quando a menina foi retirada na maca, cheia de sangue. Os dois foram sedados. Na quarta, a menina chegou a falar com a mãe pela janela, e pediu calma.
Este foi o mais longo caso de cárcere privado no estado de São Paulo. Não foi o primeiro a terminar em tragédia. Em dezembro de 2006, o marceneiro Gilberto Gomes de Lima, de 42 anos, manteve sob a mira de um revólver – dentro de sua oficina – a mulher, Gilvanete da Silva Lima, de 37 anos, e a amante, grávida, Andréa Pereira dos Santos, de 31 anos. Após 30 horas de negociações com a polícia, Lima matou a amante e se matou em seguida, deixando livre apenas a mulher. Andréa teria contado a Gilvanete que estava grávida.
Psicólogos dizem que paixão doentia e perda de poder sobre a ex-namorada podem ter motivado Lindemberg, descrito como um rapaz calmo pelos familiares, a seqüestrá-la.
Espera longa e criticada
O fim do seqüestro ocorreu em meio a críticas sobre a ação da polícia. Um dia antes, na quinta-feira, Naiara Vieira, 15 anos, voltou ao prédio e se tornou novamente refém. A adolescente, rendida no primeiro dia, ao lado da amiga, havia passado 33 horas refém e tinha sido liberada na noite de terça. Na quarta, prestou longo depoimento à polícia, no qual relatou que Lindemberg estava agressivo e havia batido várias vezes em Eloá.
No dia seguinte, o seqüestrador exigiu que a Polícia Militar chamasse de novo Naiara. Em troca, libertaria Eloá. A adolescente retornou ao prédio e virou novamente refém.
A Polícia Militar chegou a negar que ela estivesse de novo na condição de refém e informou que a presença da menina era “estratégia de negociação” . Na manhã de quinta, o próprio coronel Eduardo José Félix havia dito que ela poderia sair quando quisesse do apartamento. Mas o rapaz blefou e não libertou a garota.
Naiara não saiu mais. Na tarde de quinta, o coronel deixou Santo André e participou, em São Paulo, do confronto entre a Polícia Militar e policiais civis em greve.
A polícia enfrentou críticas na manhã de sexta. Ariel de Castro Alves, do Condepe, afirmou que os pais de Naiara não autorizaram que ela entrasse de novo no apartamento e que, mesmo se a polícia pedisse autorização judicial, a Vara da Infância e da Adolescência não permitiria que uma adolescente fosse usada na negociação com um seqüestrador armado.
No início da noite de sexta, depois da tragédia consumada, o coronel Eduardo José Félix culpou a própria adolescente. Disse que havia combinado com a menina que ela ficasse apenas “no primeiro lance” da escada de acesso ao prédio e que ela não seguiu a orientação e entrou no apartamento.
- Ela subiu por conta própria, conversando com o Lindemberg pelo telefone. Ela subiu ao apartamento e ficou – disse o coronel, que voltou a afirmar que a família de Nayara foi consultada, antes de ela aceitar ajudar na negociação – os pais da menina negam. “A mãe dela (quando a viu entrar no apartamento) disse: ‘Não sei se choro ou se bato na minha filha’”, afirmou.
Não foi a única confusão em torno do caso. A polícia demorou cerca de uma hora para se pronunciar sobre o caso após a invasão do apartamento.
A assessoria de imprensa do Palácio dos Bandeirantes chegou a divulgar no início da noite que Eloa estava morta. Em seguida, desmentiu. Disse que Eloá havia sido reanimada dentro do hospital e pediu desculpas à família da adolescente pelo erro.
Eloá está sendo mantida em coma induzido. As primeiras informações sobre Naiara eram de que a adolescente teria sido ferida por um tiro de raspão ou tivera apenas escoriações durante a operação de retirada do apartamento. Ela saiu do apartamento andando, mas em seguida foi colocada em uma maca e era visível o sangue em seu rosto. No hospital, Naiara foi submetida a cirurgia para retirar uma bala alojada no rosto.
O coronel Eduardo José Félix disse que Lindemberg alternou entre agressivo, compreensivo e se fez de coitadinho durante toda a semana de negociação.
- Foi uma ocorrência de alto risco – reconheceu o coronel ao fim da operação.
Segundo ele, os policiais não portavam armas letais, apenas de efeito moral ou com uso de balas de borracha.
- Temos todos os registros, tudo gravado. O Gate é extremamente sério e responsável por preservar a vida – disse o coronel.
Para especialistas, a polícia cometeu pelo menos três falhas: demora, devolução de refém e acesso irrestrito ao telefone, pelo qual o criminoso chegou a dar entrevistas. Numa entrevista à TV Globo, o criminoso culpou a ex-namorada por sua atitude violenta.
A última exigência de Lindemberg atendida pela polícia foi apresentar um documento por escrito, entregue por um promotor do Ministério Público, garantindo sua integridade física. O documento foi levado pelo promotor Augusto Eduardo de Souza Rossini. Neste caso, não ocorreu falha: Lindemberg saiu ileso.




De vermelho, Lindemberg Fernandes Alves, 22, é detido por policiais do Gate durante resgate às reféns que eram mantidas em Santo André desde a última segunda-feira